Estranhamente, confronto-me com algo que não consigo perceber: a “caça à multa”. É algo que, para mim, faz tanto sentido como roubar o ar que se respira. É que, segundo me explicaram aqueles que a entendem, não é bem aceite que as autoridades policiais procurem infractores para os autuar... Procurar?... Basta olhar!!!
Todos os dias percorro no meu automóvel cerca de 60kms dentro do distrito do Porto e se há coisa com que me deparo constantemente são infracções ao Código de Estrada: desde o excesso de velocidade às ultrapassagens em linha contínua, passando pelo desrespeito da sinalização, regras ou das mais elementares normas de conduta cívica, é um autêntico “a ver se te avias”, com centenas de veículos a competir, a empurrarem-se, a insultarem-se, a ameaçarem-se, enfim, uma verdadeira selva, onde impera a lei do mais forte... Desculpem, a lei do com mais sorte. E claro, isto tem consequências, que não podiam ser piores... Só temos das piores taxas de sinistralidade da Europa, com números de mortalidade que fazem inveja a qualquer guerra civil, mas isso todos nós sabemos. Agora, o que poucos se aperceberão, é que esta realidade é do interesse ou proveito de alguém. Só pode, senão qual é o sentido de morrerem mais pessoas nas nossas estradas que soldados americanos no Iraque ou Afeganistão? Qual é a lógica de morrerem só no mês de Agosto de 2007 mais de 80 pessoas, e nós sentirmos como se fizesse parte da vida, dizendo mesmo que “quem anda à chuva molha-se”...? No entanto, durante este ano, 6 seguranças de discotecas foram assassinados, e praticamente instalou-se o pânico na opinião pública e até o próprio Presidente da República falou publicamente, dizendo que se deveriam tomar medidas para acabar com o sentimento de insegurança causado por estes assassinatos... Esta é a grande questão: quem, ou o quê, nos impede de ver este genocídio como ele é? Quem ganha com isto? Porque não tomamos medidas drásticas para resolver este flagelo, porque afinal é de uma autêntica carnificina que se trata?!?
Até agora, consegui reunir 3 teorias:
1ª teoria - "Até parece que assim é!!"
Existirá algo sobrenatural e misterioso que, por formas que desconhecemos, consegue manipular-nos de tal forma que, quando nos sentamos ao volante, nos tranforma em máquinas de matar, uma espécie de “Matrix” à portuguesa, onde forças superiores nos programam para quando em contacto com um veículo automóvel (e ao contrário do que seria humanamente expectável) bloquear o lado racional do nosso cérebro e deixar a funcionar apenas com o lado reptiliano? Certamente todos nós já assistimos a acidentes automóveis, nos quais os envolvidos, quando saem das suas viaturas colocam as mãos à cabeça, como que acordando repentinamente de uma hipnose, e perguntando-se: “ O que é que eu estava a fazer?... Onde é que eu estava com a cabeça...?”
2ª teoria - "Sempre tem mais sentido..."
Existe um lóbi secreto que agrega mecânicos, médicos e agentes funerários que, discretamente, controlam a autoridade policial, de forma a impedi-los de actuar, não contribuindo para dissuadir aqueles que todos os dias são responsáveis por fazer crescer a clientela daqueles que controlam o lóbi.
3ª teoria - "A brincar que o digas..."
A Polícia entende que circular nas nossas estradas é extremamente perigoso. Como tal, não quer expor os seus agentes a estes perigos, libertando-os para grandes operações de fiscalização apenas depois das 21:00, quando a grande parte dos condutores já está em casa. Assim conseguem alguma cobertura jornalística, pois a partir dessa hora já poucas coisas acontecem neste país. Durante o dia lá vão passando umas “multitas”, de preferência de estacionamento (desde que não sejam muitas) em locais muito movimentados, como a baixa da cidade e, mais uma vez, para que possam ser vistos por muita gente. Por seu lado, os condutores também conhecem os perigos de circular em Portugal e, como tal, quanto menos tempo passarem na estrada, menos possibilidades têm de morrer nela. Torna-se, por isso, fundamental acelerar o máximo possível para minimizar o tempo de risco. Se possível, devem deixar os carros em cima do passeio de forma a libertarem-se da estrada o mais rapidamente e, se isso não for possível, abandonar o carro em segunda fila, mas nunca procurar um lugar de estacionamento, nem que seja mais longe do nosso destino, pois isso só vai aumentar a probabilidade de sermos atingidos por esse monstro da sinistralidade.
Em jeito de conclusão, que dá sempre um ar intelectual a estas parvoíces pensadas, apelo a todos os que, como eu, acreditam que é mais fácil levar com um carro nas trombas do que com uma bala perdida, que acrescentem teorias e, quiçá, iniciem investigações no intuito de nos libertar deste “Olha, acontece...”
Nuno Gomes - "Estranha Mente" #003
Mostrar mensagens com a etiqueta porto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta porto. Mostrar todas as mensagens
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
quinta-feira, 17 de maio de 2007
Noites da Queima das Fitas 2007 do Porto
Mais um ano, mais uma edição das Noites da Queima das Fitas do Porto. Como não poderia deixar de ser, estive no Queimódromo, nos dias em que os concertos o justificavam. Os meus anos de estudante de Licenciatura já lá vão e, embebido que estou na máquina que faz girar o país, não me sobra tempo nem disposição para investidas 'barraqueiras'.
A primeira noite apresentava concertos dos The Mad Dogs, vencedores do concurso "Salta da Garagem para o Palco Principal" (promovido pela FAP), e dos Blasted Mechanism, que avançam na estrada na apresentação do álbum "Sound in Light".
A banda do Porto teve a 'honra' de abrir o Palco Principal das Noites da Queima das Fitas do Porto. Se isto poderia significar tocar para um grande número de pessoas, o facto de as portas abrirem apenas a partir da meia-noite, a revista demorada por parte da Polícia a quem entrava no recinto e, provavelmente, a grande massa de estudantes estar ainda a caminho do Queimódromo, oriundos da Serenata, fez com que fossem (ainda) poucos os presentes.
Ainda assim, os The Mad Dogs não deixaram fugir a oportunidade de dar a conhecer o seu rock'n'roll fluido, com uma actuação competente e um bom relacionamento com o público. A destacar "Wrong girl, right choice" (ver vídeo) e "Gimme rock'n'roll" (ver vídeo), temas que ilustram a sonoridade característica dos The Mad Dogs. Se o concerto não foi deslumbrante, foi, no mínimo, cumpridor.
Com grande expectativa (mais uma...) aguardava o concerto dos Blasted Mechanism, agora que já ouvi o álbum "Sound in Light" (ler o artigo "Sound in Light / Light in Sound") o número de vezes suficiente para reconhecer as músicas e - algo que me agrada imenso - cantá-las. Por isso, não seria sincero se dissesse que gostei do concerto. Ou melhor, não gostei do som! Nada mesmo. Não sei se a falta de qualidade do som se justifica pelo facto de o 'sound-check' não ter sido o mais correcto, ou outros problemas que não quero nem consigo agora imaginar, o que sei é que já ouvi concertos dos Blasted Mechanism com um som muito mais limpo. O próprio público não esteve, também ele, ao nível de concertos anteriores, facto comprovado e questionado pelo próprio Karkow.
A componente cénica parece ter sido a salvação do espectáculo, num concerto onde mais palavras em português ouvi da boca de Karkow. Se o 'karkoviano' soa estranho, não deixa de ser curioso como o português não soa menos estranho.
Os Blasted Mechanism passearam por temas do novo álbum, como "Unarmed rebellion" (ver vídeo) e "Sound in Light" (ver vídeo), mas também pelos álbuns anteriores, como "Blasted Empire" (ver vídeo), "I believe" e "Are you ready". Para fim de concerto, estavam destinadas músicas como "Nazka", "Maytsoba" (que, na minha opinião, é a música mais poderosa e que melhor ilustra o que é um concerto dos Blasted Mechanism) e "Atom bride theme", mas também estas não sobreviveram ao som miserável que debitava das colunas.
Fico a aguardar um outro concerto, onde possa desfrutar da verdadeira qualidade sonora, e aproveito para deixar aqui o desejo de voltar a ouvir temas que não ouço há muito nos concertos: "Swinging with the monkeys", "Memories will fade" e "Bolivian Feel"!
A minha segunda noite de concertos foi na denominada 'noite reggae'. Não sou - nunca fui - grande apreciador deste estilo de música. Estou bem consciente do goto em que caíu o 'reggae', da penetração deste estilo em muitas 'playlists' e, embora não me agrade muito, ouço as músicas de início ao fim quando me são dadas a ouvir. Considero-me, por isso, mais do que isento para falar sobre os concertos desta noite.
Os Mercado Negro apresentaram um concerto de grande componente festiva e onde destaco a insistência de Messias (ex-membro e co-fundador dos Kussondulola), em levantar a moral dos presentes, com mensagens de apelo a uma confraternização saudável, mas também de intervenção, com sonoridades espirituais. Embora com alguns passos de dança próximos do imaginário de saltimbancos, a capacidade de comunicação foi coroada com a partilha das vibrações em temas como "Arco-íris" (ver vídeo), "Oh Lua" (ver vídeo) e "Beija-flor" (ver vídeo).
Devo referir ainda a acção de marketing levada a cabo por Messias na apresentação do sítio web da banda, onde podemos efectuar a compra de t-shirts. Porque refiro isto? 'Puristas' do 'reggae' explicaram-me que esta - continuemos a chamar-lhe assim - "acção de marketing" vai contra os conceitos de que se constitui a filosofia 'reggae' ("Babilónia"...). Não sei. Ou porque não estou muito identificado com essa filosofia, não fico nem chocado, nem surpreso, nem nada. Apenas fui lá para ver o concerto de uns Mercado Negro, com o objectivo de ser entretido. E fui.
Mais 'novo' para mim era Patrice, cujo nome (devo confessar) nunca tinha sequer ouvido. Até para conseguir escrever este artigo, fui auscultando pessoas no sentido de me fornecerem dados sobre o 'artista'. Passo a apresentar alguns dos referidos: "Oh!...", "É mais ou menos...", "Não vais curtir...", "É reggae p'ras gajas"...
Com uma expectativa nivelada muito por baixo, ouvi Patrice sem qualquer compromisso. Talvez por isso, também tenha gostado, também porque me senti entretido, mesmo se músicas houve em que Patrice ficou a solo no palco a cantar, momento tido por muitos (eu incluído) como ideal para deslocações a barracas para recarga dos sumos de cevada ou wc's para a descarga desses mesmos sumos de cevada...
Com letras que apelam a uma consciencialização social, e com os acordes da sua guitarra, atingiu-se, por vezes, momentos de celebração colectiva, como foram os casos dos temas "Murderer" (ver vídeo) e "Soulstorm" (ver vídeo).
A globalidade dos sons no palco principal na noite 'reggae' foram quentes, descontraídos e, por vezes, contagiantes. A sensação de 'partilla' sobrevoou a área dos concertos, num misto de tranquilidade e acção.
Na tenda 'CineJazz' (área onde me considero totalmente suspeito) estava reservada a 'surpresa' e, para mim, o momento alto da noite. Com uma decoração próxima do ideal (alcatifa a convidar a uma fruição do espectáculo sentado ou mesmo deitado), o projecto Rui Azul Index (ver vídeo) foi o 'cicerone' de serviço na viagem pelo mundo do jazz.
Através de narrações da História do Jazz dos anos 50, 60, 70, 80 e 90 do século passado, e com uma cuidada e coordenada apresentação de slides com artistas proemimentes (vi lá o genial Pat Metheny...), foram sendo transmitidas informações históricas e músicas dessas décadas. A dada altura, não resisti a contemplar o som na posição horizontal...
É uma iniciativa que aplaudo com vigor, e que demonstra atenção por parte dos organizadores em incluir sonoridades 'à margem' das tradicionais dos concertos da Queima.
O balanço da noite foi altamente positivo, e considero muito bem empregue o dinheiro gasto e tempo passado no Queimódromo.
A presença na noite de quinta-feira foi causada pela satisfação resultante da noite de segunda-feira. Inicialmente, não estaria presente nesta noite, pois não sou grande conhecedor de Mundo Secreto e não tenho boa impressão de concertos dos Da Weasel na Queima do Porto. Ainda assim, porque tento não ser fóbico, investi em mais um bilhete para poder opinar com fundamento sobre os artistas desta noite.
Dos Mundo Secreto, banda de Leça da Palmeira, fiquei a saber que têm um tema incluído na novela "Morangos com açúcar". Não vou aqui discutir se isso é bom ou não, o que me parece certo é que todos os 'artistas' incluídos na banda-sonora da dita novela passam por uma espécie de 'limbo' (termo teosófico recentemente encerrado pela religião católica) do espectro musical português.
O que há a dizer então sobre a rapaziada (10 elementos!) presente no palco principal no primeiro concerto de quinta-feira? Segundo palavras dos próprios, estavam a "jogar em casa", facto que se notou no à-vontade do relacionamento com o público e a fluidez do desfile das músicas. Com 4 vocalistas a debitar o conteúdo linguístico de letras jovens e 'frescas', assistiu-se a uma primeira parte com uma certa musicalidade variada e bastante versátil.
Numa sequência musical apresentada pelo DJ de serviço, que eu definiria como segunda parte do concerto, foram apresentadas vocalizações novas para temas de Led Zeppelin, Pink Floyd, Grandmaster Flash e Run DMC. É questionável esta opção, tendo ficado no ar a ideia de que serviram para preencher tempo... Numa altura em que muito se fala de direitos autorais, fica a pergunta (para quem quiser e/ou saber responder) no ar relativamente ao enquadramento legal daquilo que foi apresentado nesta sequência.
A 'terceira' parte foi o clímax do ambiente festivo que os Mundo Secreto conseguiram injectar. Temas como "Hey Boy", "Chegamos à party" (ver vídeo), com uma especial e interessantíssima batucada (ver vídeo), "Sente a vibração" e "Hip-Hop (põe a mão no ar)" (ver vídeo) concluíram um concerto de uma banda que, longe de contribuir para novos caminhos musicais ou demonstrar primor técnico, tem presente na música e na atitude parâmetros decisivos para uma óptima celebração.
Será uma banda a ter em atenção, no sentido de verificar a (esperada) evolução. Parafraseando um dos MC, "até looougo...".
Pela enésima vez na Queima das Fitas do Porto, os Da Weasel vieram apresentar o seu mais recente álbum "Amor, Escárnio e Maldizer". Com uma (nova) postura de assumida paixão pelas gentes e atitudes da "malta do Porto" (não consigo esquecer a troca de mimos entre banda e público num concerto na Queima de 2002 ou 2003, onde Virgul, se dirigiu ao público com um sonoro e infeliz "Filhos da p***"...), o concerto foi potenciado por uma componente luminosa e visual completamente inédita para mim. Se me lembrar que o concerto destes mesmos Da Weasel da Queima de 2005 foi de tal modo pouco apelativo, ao ponto de me ter ausentado do recinto para ir jogar matraquilhos (coisa que não fazia há anos...), então a maior virtude do concerto deste ano foi exactamente o facto de ter recolhido a minha atenção e ter feito com que apreciasse o concerto todo. Sou obrigado a assumir que foram as luzes e vídeos que me prenderam, uma vez que, musicalmente, os Da Weasel apresentaram mais do mesmo.
Sem dúvida que alguns refrões apelam a um coro uníssono, em temas como "Todagente", "Outro nível" (ver vídeo), "Re-tratamento" (ver vídeo), "Tás na boa" (ver vídeo) e o novo "Dialectos da ternura" (ver vídeo), que constituíram os momentos altos da noite. A rever o tom 'zunzurrante' de algumas baladas apresentadas, onde a voz grave de Pac Man não permitia perceber as letras...
Por fim, destaco a mensagem final da música "P*** da revolução", onde Pac Man apela ao respeito racial, sinal de alguma maturidade e evolução relativamente a situações como a vivida no tal concerto em 2002 ou 2003.
A Minneman Blues Band foi a seleccionada para animar aqueles que se deslocaram à tenda 'CineJazz' e, embora com um 'ambiente' diferente de segunda-feira, também nesta noite se viveram momentos altos. A fruição do concerto de pé, por parte de alguns, e a postura completamente alucinada do responsável pelas teclas e voz, transformou a tenda em bastante mais do que o 'lounge' que se esperaria. Ainda que algumas vezes 'interrompidos' pela atitude de 'paparazzi'
levada a cabo pelos repórteres do "Porto Canal", que insistiam em arrancar expressões e declarações dos presentes, continuo a achar que a tenda 'CineJazz' merece o meu prémio de 'boa onda' nesta Queima das Fitas do Porto 2007.
A palavra final, e importante!, vai para os preços praticados pelas barracas Super Bock. FI-NAL-MEN-TE, descobriram o ponto de equilíbrio na relação preço/quantidade, que certamente fez com que os lucros da venda do tão precioso sumo de cevada atingisse valores inéditos. Dá que pensar que, na Casa da Música (mesmo nos concertos no estacionamento), por exemplo, determinada empresa de 'catering' aplique preços 4 vezes superiores aos praticados nesta Queima.
Hugo Canossa - "Apreciações" #004
A primeira noite apresentava concertos dos The Mad Dogs, vencedores do concurso "Salta da Garagem para o Palco Principal" (promovido pela FAP), e dos Blasted Mechanism, que avançam na estrada na apresentação do álbum "Sound in Light".A banda do Porto teve a 'honra' de abrir o Palco Principal das Noites da Queima das Fitas do Porto. Se isto poderia significar tocar para um grande número de pessoas, o facto de as portas abrirem apenas a partir da meia-noite, a revista demorada por parte da Polícia a quem entrava no recinto e, provavelmente, a grande massa de estudantes estar ainda a caminho do Queimódromo, oriundos da Serenata, fez com que fossem (ainda) poucos os presentes.
Ainda assim, os The Mad Dogs não deixaram fugir a oportunidade de dar a conhecer o seu rock'n'roll fluido, com uma actuação competente e um bom relacionamento com o público. A destacar "Wrong girl, right choice" (ver vídeo) e "Gimme rock'n'roll" (ver vídeo), temas que ilustram a sonoridade característica dos The Mad Dogs. Se o concerto não foi deslumbrante, foi, no mínimo, cumpridor.
Com grande expectativa (mais uma...) aguardava o concerto dos Blasted Mechanism, agora que já ouvi o álbum "Sound in Light" (ler o artigo "Sound in Light / Light in Sound") o número de vezes suficiente para reconhecer as músicas e - algo que me agrada imenso - cantá-las. Por isso, não seria sincero se dissesse que gostei do concerto. Ou melhor, não gostei do som! Nada mesmo. Não sei se a falta de qualidade do som se justifica pelo facto de o 'sound-check' não ter sido o mais correcto, ou outros problemas que não quero nem consigo agora imaginar, o que sei é que já ouvi concertos dos Blasted Mechanism com um som muito mais limpo. O próprio público não esteve, também ele, ao nível de concertos anteriores, facto comprovado e questionado pelo próprio Karkow.
Os Blasted Mechanism passearam por temas do novo álbum, como "Unarmed rebellion" (ver vídeo) e "Sound in Light" (ver vídeo), mas também pelos álbuns anteriores, como "Blasted Empire" (ver vídeo), "I believe" e "Are you ready". Para fim de concerto, estavam destinadas músicas como "Nazka", "Maytsoba" (que, na minha opinião, é a música mais poderosa e que melhor ilustra o que é um concerto dos Blasted Mechanism) e "Atom bride theme", mas também estas não sobreviveram ao som miserável que debitava das colunas.
Fico a aguardar um outro concerto, onde possa desfrutar da verdadeira qualidade sonora, e aproveito para deixar aqui o desejo de voltar a ouvir temas que não ouço há muito nos concertos: "Swinging with the monkeys", "Memories will fade" e "Bolivian Feel"!
A minha segunda noite de concertos foi na denominada 'noite reggae'. Não sou - nunca fui - grande apreciador deste estilo de música. Estou bem consciente do goto em que caíu o 'reggae', da penetração deste estilo em muitas 'playlists' e, embora não me agrade muito, ouço as músicas de início ao fim quando me são dadas a ouvir. Considero-me, por isso, mais do que isento para falar sobre os concertos desta noite.Devo referir ainda a acção de marketing levada a cabo por Messias na apresentação do sítio web da banda, onde podemos efectuar a compra de t-shirts. Porque refiro isto? 'Puristas' do 'reggae' explicaram-me que esta - continuemos a chamar-lhe assim - "acção de marketing" vai contra os conceitos de que se constitui a filosofia 'reggae' ("Babilónia"...). Não sei. Ou porque não estou muito identificado com essa filosofia, não fico nem chocado, nem surpreso, nem nada. Apenas fui lá para ver o concerto de uns Mercado Negro, com o objectivo de ser entretido. E fui.
Com uma expectativa nivelada muito por baixo, ouvi Patrice sem qualquer compromisso. Talvez por isso, também tenha gostado, também porque me senti entretido, mesmo se músicas houve em que Patrice ficou a solo no palco a cantar, momento tido por muitos (eu incluído) como ideal para deslocações a barracas para recarga dos sumos de cevada ou wc's para a descarga desses mesmos sumos de cevada...
Com letras que apelam a uma consciencialização social, e com os acordes da sua guitarra, atingiu-se, por vezes, momentos de celebração colectiva, como foram os casos dos temas "Murderer" (ver vídeo) e "Soulstorm" (ver vídeo).
A globalidade dos sons no palco principal na noite 'reggae' foram quentes, descontraídos e, por vezes, contagiantes. A sensação de 'partilla' sobrevoou a área dos concertos, num misto de tranquilidade e acção.
Através de narrações da História do Jazz dos anos 50, 60, 70, 80 e 90 do século passado, e com uma cuidada e coordenada apresentação de slides com artistas proemimentes (vi lá o genial Pat Metheny...), foram sendo transmitidas informações históricas e músicas dessas décadas. A dada altura, não resisti a contemplar o som na posição horizontal...
É uma iniciativa que aplaudo com vigor, e que demonstra atenção por parte dos organizadores em incluir sonoridades 'à margem' das tradicionais dos concertos da Queima.
O balanço da noite foi altamente positivo, e considero muito bem empregue o dinheiro gasto e tempo passado no Queimódromo.
A presença na noite de quinta-feira foi causada pela satisfação resultante da noite de segunda-feira. Inicialmente, não estaria presente nesta noite, pois não sou grande conhecedor de Mundo Secreto e não tenho boa impressão de concertos dos Da Weasel na Queima do Porto. Ainda assim, porque tento não ser fóbico, investi em mais um bilhete para poder opinar com fundamento sobre os artistas desta noite.O que há a dizer então sobre a rapaziada (10 elementos!) presente no palco principal no primeiro concerto de quinta-feira? Segundo palavras dos próprios, estavam a "jogar em casa", facto que se notou no à-vontade do relacionamento com o público e a fluidez do desfile das músicas. Com 4 vocalistas a debitar o conteúdo linguístico de letras jovens e 'frescas', assistiu-se a uma primeira parte com uma certa musicalidade variada e bastante versátil.
Numa sequência musical apresentada pelo DJ de serviço, que eu definiria como segunda parte do concerto, foram apresentadas vocalizações novas para temas de Led Zeppelin, Pink Floyd, Grandmaster Flash e Run DMC. É questionável esta opção, tendo ficado no ar a ideia de que serviram para preencher tempo... Numa altura em que muito se fala de direitos autorais, fica a pergunta (para quem quiser e/ou saber responder) no ar relativamente ao enquadramento legal daquilo que foi apresentado nesta sequência.
A 'terceira' parte foi o clímax do ambiente festivo que os Mundo Secreto conseguiram injectar. Temas como "Hey Boy", "Chegamos à party" (ver vídeo), com uma especial e interessantíssima batucada (ver vídeo), "Sente a vibração" e "Hip-Hop (põe a mão no ar)" (ver vídeo) concluíram um concerto de uma banda que, longe de contribuir para novos caminhos musicais ou demonstrar primor técnico, tem presente na música e na atitude parâmetros decisivos para uma óptima celebração.
Será uma banda a ter em atenção, no sentido de verificar a (esperada) evolução. Parafraseando um dos MC, "até looougo...".
Sem dúvida que alguns refrões apelam a um coro uníssono, em temas como "Todagente", "Outro nível" (ver vídeo), "Re-tratamento" (ver vídeo), "Tás na boa" (ver vídeo) e o novo "Dialectos da ternura" (ver vídeo), que constituíram os momentos altos da noite. A rever o tom 'zunzurrante' de algumas baladas apresentadas, onde a voz grave de Pac Man não permitia perceber as letras...
Por fim, destaco a mensagem final da música "P*** da revolução", onde Pac Man apela ao respeito racial, sinal de alguma maturidade e evolução relativamente a situações como a vivida no tal concerto em 2002 ou 2003.
A palavra final, e importante!, vai para os preços praticados pelas barracas Super Bock. FI-NAL-MEN-TE, descobriram o ponto de equilíbrio na relação preço/quantidade, que certamente fez com que os lucros da venda do tão precioso sumo de cevada atingisse valores inéditos. Dá que pensar que, na Casa da Música (mesmo nos concertos no estacionamento), por exemplo, determinada empresa de 'catering' aplique preços 4 vezes superiores aos praticados nesta Queima.
Hugo Canossa - "Apreciações" #004
terça-feira, 10 de abril de 2007
M.I.C.E. ou o edificio opaco...
Localizado na orla marítima, entre as cidades do Porto e Matosinhos, encontra-se um imponente caixote de betão e vidro que, aparentemente, não serve para nada. Construído inicialmente para entreter construtores civis, este monumento impôs-se no mundo artístico pela força da mensagem que carrega. À semelhança de Guernica de Pablo Picasso, que alerta consciências para os horrores da guerra, o M.I.C.E. alerta-nos para o desgoverno em que o nosso país caiu.
Mas falar de uma obra de volumetria considerável, cuja única função é a mesma de um burro ao sol, é omitir a sua verdadeira função. Omissão essa que suspeito, seriamente, ter origem nas mesmas pessoas que até hoje não conseguiram explicar de forma clara e inequívoca como é que aquilo apareceu ali.
Pois bem, a Estranha Mente, após horas de observação e estudo desta obra, conclui que o Edifício Transparente, cujo nome é uma antítese da sua essência, é uma homenagem:
- a todos aqueles que não votam porque acham que isso da política não é nada com eles;
- aos políticos corruptos, gananciosos, sem escrúpulos e incompetentes;
- aos construtores civis;
- ao desinteresse do contribuinte relativamente à aplicação dos dinheiros públicos;
- ao desinteresse do eleitor relativamente à competência de quem elege.
Ao entender o M.I.C.E. perceberá que o povo já não é quem mais ordena (se é que alguma vez foi), mas que o povo não risca nada. Perceberá que lutamos para derrubar um regime que oprimia a liberdade de expressão, para o substituir por um outro que lhe permite reclamar mas que não tem livro de reclamações. Perceberá que no mundo actual só há dois tipos de classes: os que se orientam, e os que são orientados, tudo sem qualquer tipo de orientação.
Por tudo isto, apelo aos responsáveis pelas recentes obras de adaptação do Edifício Transparente a espaço comercial e de lazer que parem imediatamente! Não cometam esse erro! Na qualidade de ingénuo optimista orientado, vulgo cidadão, eu preciso desta luz. Dar uma utilidade a este espaço é destruir a sua essência! Eu reconheço que o que esta obra representa não é muito dignificante. No entanto, temos muito património que advém de períodos negros da nossa história que ainda hoje se mantêm, quer pela sua utilidade, quer por não nos deixar esquecer deles, para que possamos aprender com os nossos erros.
No futuro, quero poder mostrar esta obra às futuras gerações, referindo-me a um tempo em que este país construía por construir, decidia por decidir, falava por falar.
Quero, com a mesma intensidade que falaram da revolução de Abril, poder falar do meu tempo de total desorientação politica e social. De um tempo em que tudo fazíamos para ser melhores europeus, sem nos lembrarmos que, para isso, teríamos que ser grandes portugueses. De um tempo em que quase se perdeu o sentido de nação, em virtude de uma necessidade de afirmação europeísta. De um tempo em que os políticos estagiavam no governo nacional, para poder fazer carreira internacional. De um tempo em que as pessoas queriam mais ser Europeus de origem portuguesa do que Portugueses. Portugueses esses que originaram a Europa das grandes nações. Sim, Portugueses que originaram a globalização, que criaram uma das mais antigas nações deste continente. De um tempo em que amor à pátria tinha duas vertentes: a das bandeiras que acompanhavam a selecção nacional e a dos saudosistas do fascismo.
Mas talvez estas obras no M.I.C.E. tenham a mesma finalidade da mudança de nome de Ponte Salazar para Ponte 25 de Abril. Ou seja, a ponte não deixou de ser útil, apenas o nome desapropriado. Talvez seja um sinal de mudança… uma revolução silenciosa…
Nuno Gomes "Estranha Mente" #001
Labels:
abril,
arquitectura,
contribuinte,
edifício,
eleitor,
história,
impostos,
matosinhos,
porto,
povo,
revolução
sábado, 31 de março de 2007
Ursula Rucker na Fnac de Santa Catarina
Com um (curto) "showcase" de 3 músicas, a poeta-cantora de Filadélfia (EUA), que já foi 'a' voz dos "4 Hero", e já colaborou com nomes como "King Britt", "Josh Wink" ou "The Roots", presentou o público presente com ritmos hiphop, soul e jazz a envolver a poesia intervencionista e fluida, que apela e chama a atenção para a independência da criação musical e à própria libertação daquelas etiquetadas como 'supa-sistas'.
Para uma plateia de 150 pessoas, para quem as 3 músicas souberam a pouco, foi a oportunidade de abrir o apetite e ficar atento ao novo álbum.
Hugo Canossa - "Apreciações" #002
Subscrever:
Mensagens (Atom)