Dantes, dizíamos e ouvíamos dizer que este ou aquele estavam afectados pelo clima. Será que podemos, agora, dizer que o clima está afectado (por nós?)?
Encontrava-se este ou aquele afectado pelo clima quando demonstrava alteração moral ou física em relação ao seu, mais conhecido, padrão de normalidade comportamental. Actualmente, o clima revela, à escala planetária, uma alteração em relação ao padrão meteorológico a que nos tinha habituado.
Se a este ou àquele, pelas suas atitudes invulgares ou pela sua forma ou aspecto transtornados, não se pode, na maioria das vezes, imputar responsabilidade ao clima (ainda é bastante português e, se calhar, também humano, ouvir dizer ou dizer expressões como: “Este calor dá cabo de mim, nem consigo respirar"; "Este frio causa-me frieiras"; "Com este vento fico maluco"; "Com esta humidade o meu joelho mata-me"; "A maresia causa-me alergia"; "Este tempo é bom é para as gripes, ora está calor ou a chover e está sempre um vento do caraças.”). No entanto, relativamente à segunda parte da dialéctica supra iniciada, não podemos, de ânimo leve, desconsiderar a relação causa/efeito. Ou seja, quanto às incaracterísticas climáticas, podemos, facilmente, apontar alguns causadores.
Segundo alguns estudiosos do assunto defendiam, há alguns anos atrás, as variações climáticas podiam-se padronizar ciclicamente. Cada ciclo corresponderia a cerca da 50/60 anos, durante o qual as "estações do ano" estariam mais propensas a Invernos mais rigorosos e Verões menos quentes e vice-versa. Estes períodos sucediam-se alternadamente, sendo que estaríamos, neste momento, a atravessar um ciclo em que os Invernos seriam menos rigorosos e os Verões mais fortes.
Em Portugal, o último Inverno não foi muito frio apesar de ter chovido bastante. A passada Primavera foi essencialmente chuvosa e o Verão continua fraco e com pluviosidade não rara. Tem-se observado, ainda, de há várias semanas a esta altura, um constante vento médio, forte ou muito forte. Um notável meteorologista português, Anthímio de Azevedo, referiu a evolução constante e não periodicizável (será que esta palavra existe?) do clima. Reflexos de uma mutação permanente do planeta. O tempo óptimo teria ocorrido há cerca de 1800 anos atrás, por volta do II ou III século d.C.. Nessa altura, a Natureza estaria em quase perfeito equilíbrio, regulada por posições de natural simbiose entre equinócio e solstício.
Desde então, muito mudou. O planeta continua a viver, a evoluir, a mudar. Os próprios movimentos planetários e astrais não são matematicamente rigorosos nem britanicamente pontuais e muito menos facilmente calendarizáveis com precisão. A cronometrização científica em segundos, minutos e horas é falível. A calendarização em dias, semanas, meses e anos é ainda mais infiel. O que representará num milénio uma divergência de poucos segundos em cada dia em relação à posição dos astros? Como diria um antigo primeiro-ministro português, "é fazer as contas". A natureza não tem de ser pontual nem os astros necessitam de relógio. As coisas são o que são e acontece-lhes o que tiver de lhes acontecer independentemente de o tempo ser este ou aquele. Ou não?
A necessidade de contabilização e compartimentação do tempo é uma característica inalienável à Civilização Humana mas disso falaremos noutra altura.
Há ainda, a dar o seu contributo para a instabilidade do Clima, a mão Humana. A pesada e violenta manápula do Homem. Sem querer parecer fundamentalista ambiental, devo dizer, de garganta devidamente pigarreada, que o Homem é o principal causador do clima afectado em que vivemos.
Façamos a definição de clima como sendo o reflexo meteorológico e enérgico do planeta. A poluição causada pela actividade humana no planeta afecta, de forma directa e indirecta, o clima. O alargamento do buraco na camada de ozono, a desflorestação selvagem, o constante degelo dos glaciares, são, entre outros, os feitos do Homem para com a Terra. Como é que o clima não há-de estar afectado? Vai continuar afectado e não se preveem melhorias tão cedo.
Se a infernal máquina poluidora humana conseguisse apenas manter os níveis de poluição registadas em 2006, isto é, não os aumentar (como é provável que aconteça este ano e continue a acontecer durante muitos mais) durante uma série de anos, daqui para diante, só veríamos resultados positivos dessa atitude daqui a três ou quatro décadas.
O clima está afectado e vai continuar a estar enquanto o Homem continuar a olhar para o seu umbigo e ali ver uma espécie de buraco negro onde se poderá refugiar quando nada mais restar do seu habitat.
Segue-se a era dos mutantes e a sobrevivência será o lema. Já faltou mais.
Miguel dos Santos - "III Milénio" #001
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segunda-feira, 1 de outubro de 2007
Clima afectado
sexta-feira, 20 de julho de 2007
Os dias da cunha
A 'cunha' - ou 'factor C' - é algo que faz parte de nós e cuja definição é tão complexa que chega a ser ambígua. Faz parte da nossa cultura, das nossas vidas. É algo com que nascemos e com a qual lidamos durante toda a nossa existência, mas no fundo, é o quê?
Sabemos que pode ser considerada negativa quando é exercida sobre outros, e nos prejudica quando, por exemplo, somos preteridos por alguém que tem uma. Por outro lado, se formos nós os beneficiados, deixa de ser má para ser um motivo de orgulho. Os beneficiados por elas sentem-se privilegiados por conhecerem as pessoas certas nos lugares certos, sentem-se afortunados por pertencer a um grupo de elite que lhes permite, por exemplo, não perder tempo nas salas de espera nos centros de saúde para obter uma prescrição médica.
A 'cunha' não tem definida a sua aceitação social. No entanto, quando queremos fazer algo tão simples como esclarecer uma dúvida sobre impostos, a primeira pergunta que fazemos é: "Não conheces ninguém nas Finanças??". Estranhamente, a pergunta deveria ser a própria dúvida ou, na melhor das hipóteses "Vou às Finanças, ou ligo-lhes??" e não se conheço lá alguém ou se tenho algum amigo/conhecido de alguém que conheça.
A 'cunha' tem tamanha importância e presença que pode ser utilizada como unidade de medida da qualidade de vida: nascemos numa maternidade onde os nossos pais até têm 'cunha'. Significa automaticamente que vamos receber mais cuidados médicos e, provavelmente, o melhor quarto. Crescemos e os nossos pais colocam-nos no infantário do amigo de um deles. Quase será escusado dizer que todo o pessoal do infantário saberá o nosso nome desde o primeiro dia, bem como o dos nossos pais, sem falar no historial clínico e traços de personalidade que passarão a ser do conhecimento geral.
Quando vamos para a escola, a 'cunha' continua a marcar pontos na nossa qualidade de vida, pois a professora, que por acaso é amiga da tia, tem a constante preocupação de acompanhar a nossa evolução, nem que seja para informar a tia quando estiverem a tomar chá, isto sem falar nas notas que estão sujeitas a aprovação... Com o passar dos anos, a importância e amplitude do 'factor C' crescem como nós: serve para conseguir bons empregos, os melhores lugares e preços nos restaurantes, fazer aquela obra ou aquele negócio.
A 'cunha' é multifacetada e serve praticamente para tudo. Abre portas e resolve problemas. É um privilégio, quase uma benção, e tudo apenas porque se conhece este ou somos amigos daquele.
Mas porque é a 'cunha', sendo ela baseada em valores tão dignos como a amizade, a confiança e até a solidariedade, tratada marginalmente, como algo que não deve ser falado em público? Porque contamos com ela mas agimos como se não existisse?...
Porque a 'cunha' não é um favor que se faz a um amigo! A verdadeira essência da 'cunha' revela o que de mais primitivo e animal o ser humano tem. E nós sabemos disso. Sabemos que, quando metemos uma cunha, confessamos que não damos o nosso melhor todos os dias. Assumimos que não vemos todos da mesma maneira. Apercebemo-nos que a sociedade à qual pertencemos não passa do grupo de pessoas que conhecemos e pelas quais sentimos a obrigação de fazer mais qualquer coisa pelo simples facto de a elas estarmos ligados por qualquer tipo de sentimento. E são estas emoções que nos conseguem distrair do nosso sentido de sobrevivência. Instinto esse que nos torna irracionais e egoístas. Somos assim mesmo. Queremos o melhor para nós, todos os dias, e apenas nos ligamos aos outros porque precisamos deles de alguma forma. Somos animais como qualquer outro e tentamos sobreviver da melhor maneira. É da Natureza e da nossa natureza. E convenhamos que não é a coisa mais dignificante. É o ser humano no seu estado mais animal.
No fundo, queremos da vida o mesmo que uma hiena.
Quando metemos uma cunha, contribuímos para um mundo melhor... o nosso. É a lei da sobrevivência.
Nuno Gomes - "Estranha Mente" #002
Sabemos que pode ser considerada negativa quando é exercida sobre outros, e nos prejudica quando, por exemplo, somos preteridos por alguém que tem uma. Por outro lado, se formos nós os beneficiados, deixa de ser má para ser um motivo de orgulho. Os beneficiados por elas sentem-se privilegiados por conhecerem as pessoas certas nos lugares certos, sentem-se afortunados por pertencer a um grupo de elite que lhes permite, por exemplo, não perder tempo nas salas de espera nos centros de saúde para obter uma prescrição médica.
A 'cunha' não tem definida a sua aceitação social. No entanto, quando queremos fazer algo tão simples como esclarecer uma dúvida sobre impostos, a primeira pergunta que fazemos é: "Não conheces ninguém nas Finanças??". Estranhamente, a pergunta deveria ser a própria dúvida ou, na melhor das hipóteses "Vou às Finanças, ou ligo-lhes??" e não se conheço lá alguém ou se tenho algum amigo/conhecido de alguém que conheça.
A 'cunha' tem tamanha importância e presença que pode ser utilizada como unidade de medida da qualidade de vida: nascemos numa maternidade onde os nossos pais até têm 'cunha'. Significa automaticamente que vamos receber mais cuidados médicos e, provavelmente, o melhor quarto. Crescemos e os nossos pais colocam-nos no infantário do amigo de um deles. Quase será escusado dizer que todo o pessoal do infantário saberá o nosso nome desde o primeiro dia, bem como o dos nossos pais, sem falar no historial clínico e traços de personalidade que passarão a ser do conhecimento geral.
Quando vamos para a escola, a 'cunha' continua a marcar pontos na nossa qualidade de vida, pois a professora, que por acaso é amiga da tia, tem a constante preocupação de acompanhar a nossa evolução, nem que seja para informar a tia quando estiverem a tomar chá, isto sem falar nas notas que estão sujeitas a aprovação... Com o passar dos anos, a importância e amplitude do 'factor C' crescem como nós: serve para conseguir bons empregos, os melhores lugares e preços nos restaurantes, fazer aquela obra ou aquele negócio.
A 'cunha' é multifacetada e serve praticamente para tudo. Abre portas e resolve problemas. É um privilégio, quase uma benção, e tudo apenas porque se conhece este ou somos amigos daquele.
Mas porque é a 'cunha', sendo ela baseada em valores tão dignos como a amizade, a confiança e até a solidariedade, tratada marginalmente, como algo que não deve ser falado em público? Porque contamos com ela mas agimos como se não existisse?...
Porque a 'cunha' não é um favor que se faz a um amigo! A verdadeira essência da 'cunha' revela o que de mais primitivo e animal o ser humano tem. E nós sabemos disso. Sabemos que, quando metemos uma cunha, confessamos que não damos o nosso melhor todos os dias. Assumimos que não vemos todos da mesma maneira. Apercebemo-nos que a sociedade à qual pertencemos não passa do grupo de pessoas que conhecemos e pelas quais sentimos a obrigação de fazer mais qualquer coisa pelo simples facto de a elas estarmos ligados por qualquer tipo de sentimento. E são estas emoções que nos conseguem distrair do nosso sentido de sobrevivência. Instinto esse que nos torna irracionais e egoístas. Somos assim mesmo. Queremos o melhor para nós, todos os dias, e apenas nos ligamos aos outros porque precisamos deles de alguma forma. Somos animais como qualquer outro e tentamos sobreviver da melhor maneira. É da Natureza e da nossa natureza. E convenhamos que não é a coisa mais dignificante. É o ser humano no seu estado mais animal.
No fundo, queremos da vida o mesmo que uma hiena.
Quando metemos uma cunha, contribuímos para um mundo melhor... o nosso. É a lei da sobrevivência.
Nuno Gomes - "Estranha Mente" #002
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