
A banda do Porto teve a 'honra' de abrir o Palco Principal das Noites da Queima das Fitas do Porto. Se isto poderia significar tocar para um grande número de pessoas, o facto de as portas abrirem apenas a partir da meia-noite, a revista demorada por parte da Polícia a quem entrava no recinto e, provavelmente, a grande massa de estudantes estar ainda a caminho do Queimódromo, oriundos da Serenata, fez com que fossem (ainda) poucos os presentes.
Ainda assim, os The Mad Dogs não deixaram fugir a oportunidade de dar a conhecer o seu rock'n'roll fluido, com uma actuação competente e um bom relacionamento com o público. A destacar "Wrong girl, right choice" (ver vídeo) e "Gimme rock'n'roll" (ver vídeo), temas que ilustram a sonoridade característica dos The Mad Dogs. Se o concerto não foi deslumbrante, foi, no mínimo, cumpridor.
Com grande expectativa (mais uma...) aguardava o concerto dos Blasted Mechanism, agora que já ouvi o álbum "Sound in Light" (ler o artigo "Sound in Light / Light in Sound") o número de vezes suficiente para reconhecer as músicas e - algo que me agrada imenso - cantá-las. Por isso, não seria sincero se dissesse que gostei do concerto. Ou melhor, não gostei do som! Nada mesmo. Não sei se a falta de qualidade do som se justifica pelo facto de o 'sound-check' não ter sido o mais correcto, ou outros problemas que não quero nem consigo agora imaginar, o que sei é que já ouvi concertos dos Blasted Mechanism com um som muito mais limpo. O próprio público não esteve, também ele, ao nível de concertos anteriores, facto comprovado e questionado pelo próprio Karkow.
Os Blasted Mechanism passearam por temas do novo álbum, como "Unarmed rebellion" (ver vídeo) e "Sound in Light" (ver vídeo), mas também pelos álbuns anteriores, como "Blasted Empire" (ver vídeo), "I believe" e "Are you ready". Para fim de concerto, estavam destinadas músicas como "Nazka", "Maytsoba" (que, na minha opinião, é a música mais poderosa e que melhor ilustra o que é um concerto dos Blasted Mechanism) e "Atom bride theme", mas também estas não sobreviveram ao som miserável que debitava das colunas.
Fico a aguardar um outro concerto, onde possa desfrutar da verdadeira qualidade sonora, e aproveito para deixar aqui o desejo de voltar a ouvir temas que não ouço há muito nos concertos: "Swinging with the monkeys", "Memories will fade" e "Bolivian Feel"!

Devo referir ainda a acção de marketing levada a cabo por Messias na apresentação do sítio web da banda, onde podemos efectuar a compra de t-shirts. Porque refiro isto? 'Puristas' do 'reggae' explicaram-me que esta - continuemos a chamar-lhe assim - "acção de marketing" vai contra os conceitos de que se constitui a filosofia 'reggae' ("Babilónia"...). Não sei. Ou porque não estou muito identificado com essa filosofia, não fico nem chocado, nem surpreso, nem nada. Apenas fui lá para ver o concerto de uns Mercado Negro, com o objectivo de ser entretido. E fui.
Com uma expectativa nivelada muito por baixo, ouvi Patrice sem qualquer compromisso. Talvez por isso, também tenha gostado, também porque me senti entretido, mesmo se músicas houve em que Patrice ficou a solo no palco a cantar, momento tido por muitos (eu incluído) como ideal para deslocações a barracas para recarga dos sumos de cevada ou wc's para a descarga desses mesmos sumos de cevada...
Com letras que apelam a uma consciencialização social, e com os acordes da sua guitarra, atingiu-se, por vezes, momentos de celebração colectiva, como foram os casos dos temas "Murderer" (ver vídeo) e "Soulstorm" (ver vídeo).
A globalidade dos sons no palco principal na noite 'reggae' foram quentes, descontraídos e, por vezes, contagiantes. A sensação de 'partilla' sobrevoou a área dos concertos, num misto de tranquilidade e acção.
Através de narrações da História do Jazz dos anos 50, 60, 70, 80 e 90 do século passado, e com uma cuidada e coordenada apresentação de slides com artistas proemimentes (vi lá o genial Pat Metheny...), foram sendo transmitidas informações históricas e músicas dessas décadas. A dada altura, não resisti a contemplar o som na posição horizontal...
É uma iniciativa que aplaudo com vigor, e que demonstra atenção por parte dos organizadores em incluir sonoridades 'à margem' das tradicionais dos concertos da Queima.
O balanço da noite foi altamente positivo, e considero muito bem empregue o dinheiro gasto e tempo passado no Queimódromo.

O que há a dizer então sobre a rapaziada (10 elementos!) presente no palco principal no primeiro concerto de quinta-feira? Segundo palavras dos próprios, estavam a "jogar em casa", facto que se notou no à-vontade do relacionamento com o público e a fluidez do desfile das músicas. Com 4 vocalistas a debitar o conteúdo linguístico de letras jovens e 'frescas', assistiu-se a uma primeira parte com uma certa musicalidade variada e bastante versátil.
Numa sequência musical apresentada pelo DJ de serviço, que eu definiria como segunda parte do concerto, foram apresentadas vocalizações novas para temas de Led Zeppelin, Pink Floyd, Grandmaster Flash e Run DMC. É questionável esta opção, tendo ficado no ar a ideia de que serviram para preencher tempo... Numa altura em que muito se fala de direitos autorais, fica a pergunta (para quem quiser e/ou saber responder) no ar relativamente ao enquadramento legal daquilo que foi apresentado nesta sequência.
A 'terceira' parte foi o clímax do ambiente festivo que os Mundo Secreto conseguiram injectar. Temas como "Hey Boy", "Chegamos à party" (ver vídeo), com uma especial e interessantíssima batucada (ver vídeo), "Sente a vibração" e "Hip-Hop (põe a mão no ar)" (ver vídeo) concluíram um concerto de uma banda que, longe de contribuir para novos caminhos musicais ou demonstrar primor técnico, tem presente na música e na atitude parâmetros decisivos para uma óptima celebração.
Será uma banda a ter em atenção, no sentido de verificar a (esperada) evolução. Parafraseando um dos MC, "até looougo...".
Sem dúvida que alguns refrões apelam a um coro uníssono, em temas como "Todagente", "Outro nível" (ver vídeo), "Re-tratamento" (ver vídeo), "Tás na boa" (ver vídeo) e o novo "Dialectos da ternura" (ver vídeo), que constituíram os momentos altos da noite. A rever o tom 'zunzurrante' de algumas baladas apresentadas, onde a voz grave de Pac Man não permitia perceber as letras...
Por fim, destaco a mensagem final da música "P*** da revolução", onde Pac Man apela ao respeito racial, sinal de alguma maturidade e evolução relativamente a situações como a vivida no tal concerto em 2002 ou 2003.
A palavra final, e importante!, vai para os preços praticados pelas barracas Super Bock. FI-NAL-MEN-TE, descobriram o ponto de equilíbrio na relação preço/quantidade, que certamente fez com que os lucros da venda do tão precioso sumo de cevada atingisse valores inéditos. Dá que pensar que, na Casa da Música (mesmo nos concertos no estacionamento), por exemplo, determinada empresa de 'catering' aplique preços 4 vezes superiores aos praticados nesta Queima.
Hugo Canossa - "Apreciações" #004